Ser grande é abraçar o vazio

Há algo fundamentalmente suspeito em pessoas que nunca param. Que expandem, crescem, acumulam - e nunca chegam aonde querem chegar. (não é o meu caso, juro)

‘Grandiosidade sempre traz algum vazio na alma’

Que, em algum momento, pararam de perguntar “o que quero?” e passaram a perguntar apenas “quanto mais?”.

Blaise Pascal, que foi matemático, físico, filósofo e, aparentemente, uma baita presença incômoda em qualquer festa, já tinha a resposta antes da pergunta existir:

“Tout le malheur des hommes vient d’une seule chose, qui est de ne savoir pas demeurer en repos dans une chambre.”

Não entendo nada de francês também, mas achei a situação bonita. Em tradução livre:

Todos os males da humanidade vêm de uma única coisa: a incapacidade de ficar quieto num quarto.

Pode parecer conclusão de coach de Instagram. Mas é de um homem do século XVII que inventou a teoria da probabilidade.

O problema não é a ambição. O problema é o que mora no lugar em que deveria estar a ambição quando ela deixa de ser suficiente.


O universo tem um problema parecido

O universo está em expansão. Não é metáfora, é pura física. A partir do Big Bang, tudo o que existe se afasta de tudo o que existe, e esse afastamento acelera.

Galáxias se distanciam de galáxias. Estrelas se afastam de estrelas. Aglomerados se afastam de aglomerados. A Lua está se afastando da Terra cerca de 4 cm por ano, e a Terra está se afastando do Sol cerca de 15 cm por ano.

Mas o que há entre as galáxias? Nada. Um vazio imenso, crescente, matematicamente proporcional ao tamanho do universo que o contém. Um vazio tão grande que, nem viajando na velocidade da luz, conseguiríamos chegar a outras galáxias porque sua expansão é mais rápida do que a luz.

Então, quanto maior o universo, maior o vazio entre as partes.

Não é falha de design. É a condição estrutural de qualquer coisa que expande sem parar.

O nome técnico para a força que impulsiona essa expansão acelerada é energia escura (alguém viu uma referência à Tríade Negra aqui?), e os físicos concordam que ela existe, que representa cerca de 68% do conteúdo total do universo, e que absolutamente ninguém entende direito o que é.

(Reconfortante, não? Dois terços do universo é uma coisa que existe e ninguém sabe explicar. )

Agora troca “universo” por “ego” e refaz o cálculo.


A grandiosidade como estratégia de sobrevivência

Ninguém acorda numa manhã ensolarada e decide ser grandioso por maldade.

A grandiosidade, na maioria dos casos, começa como defesa contra a irrelevância, contra o medo, contra aquela voz que diz que você não é suficiente. O problema é que ela é uma defesa que funciona. Até parar de funcionar.

‘Alguns sempre querem mais, não importa como’

A psicologia comportamental chama de corrida hedônica o fenômeno em que cada conquista eleva o patamar de referência do prazer, exigindo a próxima conquista ainda maior para produzir o mesmo efeito. É uma dívida de neurotransmissores que nunca zera. Um buraco negro que cresce na mesma proporção em que você tenta preenchê-lo.

‘O cara que aboliu a escravidão’

Abraham Lincoln, que entendia bem de caráter humano, afinal presidiu enquanto uma guerra civil enquanto perdia filhos, costumava dizer que o jeito mais confiável de medir o caráter de alguém era simplesmente dar poder a essa pessoa.

Não tirar. Dar.

O que o poder revela não é corrupção. Revela o vazio que já estava lá antes e só ficou sem desculpas para se esconder.


O que os muito grandiosos fazem com o espaço em branco

Quando alguém atinge um nível de recursos que elimina os limites práticos da existência - quando você pode comer o que quiser, ir onde quiser, comprar o que quiser, contratar quem quiser -, o vazio fica sem álibi.

Não tem mais “quando eu tiver dinheiro eu vou…”. O dinheiro está lá. O vazio também.

Howard Hughes passou os últimos anos de vida recluso num quarto de hotel em Las Vegas, deixando as unhas crescerem até parecerem garras, recusando contato humano, obcecado com contaminação bacteriana. Bilionário. Pioneiro da aviação comercial. Dono de estúdios de cinema em Hollywood. E completamente incapaz de habitar o próprio silêncio.

Jeffrey Epstein construiu uma rede de influência, ilhas, fortunas e conexões que serviam como ruído contínuo contra o vazio. Só que o método escolhido para preenchê-lo destruiu vidas reais, mensuráveis e identificáveis. O vazio dele não era um problema pessoal: havia vítimas e comparsas.

Essa é a versão extrema. Mas a lógica escala para baixo com facilidade desconcertante: no gerente que humilha subordinados em reunião, no pai que confunde presença com domínio, no guru de Instagram que cobra R$4.997 para te ensinar a “não ter medo de ser grande” enquanto o próprio vazio dele financia o próximo curso.

O vazio não tem endereço fixo.


A grandeza que sabe o que é

E aqui a coisa fica estranha, porque a grandeza de verdade - não a performática - também expande. Também deixa vazio entre as partes.

A diferença é que a grandeza funcional sabe que o vazio existe e não entra em pânico.

‘Esse sabia muito…’ Marco Aurélio era o homem mais poderoso do mundo romano; foi imperador de um território que cobria boa parte do Ocidente conhecido, com exércitos à disposição e decisões de vida e morte como rotina. E passava as noites escrevendo para si mesmo que era apenas um ponto no tempo, que seria esquecido, que o poder não significava nada diante da morte.

As Meditações não foram escritas para publicação. Eram conversas com o próprio vazio. (O que diz muito sobre o estado das redes sociais e dos sites pessoais, dois milênios depois)

A grandeza funcional não preenche o vazio; ela aprende a habitá-lo.

É uma distinção pequena, mas com consequências enormes.


A parte que ninguém te conta sobre ser grande

‘Ninguém é grande, se acha grande.’ Ser grande - de qualquer forma que você defina grandeza - é invariavelmente abraçar um vazio proporcional.

Não porque a vida é cruel (ela é, mas não é esse o ponto aqui). Mas porque expansão e vazio são o mesmo fenômeno vistos de ângulos diferentes. O universo não tem vazio apesar de estar em expansão; tem vazio porque está em expansão.

E a pergunta que importa não é “como evito o vazio?” - porque não tem como.

A pergunta é o que você coloca dentro dele.

Quem preencheu com controle destruiu coisas. Quem preencheu com criação deixou algo. Quem preencheu com honestidade sobre o próprio tamanho dormiu melhor, ou pelo menos mais honestamente inquieto.

(Que, sendo realista, já é bastante coisa)

Toda grandeza tem um vazio correspondente. A questão não é se você vai abraçá-lo - é se vai notar que ele existe antes que ele te engula.