Ode ao fracasso e porque isso é bom
Tem uma coisa estranha que acontece com o fracasso: todo mundo o venera depois que ele se torna trampolim para o sucesso. Antes disso, é motivo de vergonha silenciosa, de crise existencial às 3 da manhã e de scroll infinito no Reddit tentando entender por que a sua vida parece uma versão beta de todas as outras e por que você é um NPC.
Mas e se o fracasso, o fracasso de verdade, o sem redenção cinematográfica, for exatamente o que precisa acontecer?

A ficção científica do sucesso nas redes
Estava matutando essa ideia esses dias, após ler um belíssimo livro sobre o assunto. Como pode todo mundo ser tão foda? (plot twist: é mentira)
Vi que a youtuber Cá Fernandes fez dois vídeos que tocam nesse ponto delicado com uma precisão cirúrgica.
Assista e volte aqui. (Parte 1 e Parte 2 )
Sim, é isso mesmo. O que você sempre pensou: a internet não mostra o que é normal. Mostra o que é extremo. E quando você consome extremo todo dia, o extremo vira o novo normal. E a sua vida real, com as contas em dia e o carro de 2013 que ainda roda bem, parece um fracasso ambulante.
O algoritmo não tem interesse em te mostrar que a maioria das pessoas tem dois ou três amigos íntimos, que quase ninguém sabe exatamente o que quer da vida aos 25, 30, 40 ou 50 anos; que o trabalho sempre foi, antes de tudo, responsabilidade, e não uma jornada épica de autorrealização diária.
Os coaches e mentores (em breve um artigo sobre isso) entenderam isso e monetizaram: criaram um relógio invisível em que você deveria ter empreendido aos 18, investido aos 21 e ser milionário aos 25.
Quem chega aos 35~50 com emprego CLT, aluguel pago e uma vida mais ou menos funcional passou a ser diagnosticado como portador de “mentalidade pequena” e possivelmente fracassado (obrigado, sociedade do cansaço).
Conveniente, não?
A história que não aparece no Instagram
- Jeff Bezos recebeu USD 250 mil dos pais para fundar a Amazon;
- A mãe de Bill Gates tinha conexões diretas na IBM; e
- O pai de Warren Buffett era congressista.
Não estou dizendo que essas pessoas não trabalharam ou não tiveram mérito. Estou dizendo que a versão que chegou até você é uma fanfic bem-produzida do que realmente aconteceu. Puro storytelling.
O “zero” de todo mundo é diferente - nada meritocrático, não? E tudo bem. O problema é vender o mito do zero universal como produto de autoajuda porque quem compra o mito compra junto a culpa por não ter chegado lá ainda.
Até os mais virtuosos falharam - e feio
Como falei lá em cima, esse post me veio à mente depois de ler um livro chamado “Elogio do fracasso: Desafiando a cultura do sucesso”, que começa com uma premissa desconcertante: somos seres biologicamente programados para fracassar. A morte é o frame de tudo. O resto é decoração.
Mas o que me interessa no livro não é o niilismo de botequim que essa frase sugere: é o ponto seguinte, bem mais perturbador - o autor escolhe quatro figuras históricas admiradas mundialmente e passa o livro inteiro mostrando como cada uma delas, à sua maneira, abraçou o fracasso como vocação.
Simone Weil, uma das mentes filosóficas mais brilhantes do século XX, era cronicamente desajeitada no próprio corpo - e mesmo assim foi trabalhar em fábricas que não suportava fisicamente, lutou em guerras onde se machucou com a própria arma (não no combate, no treino) e no final se matou de inanição, recusando comida enquanto trabalhadores passavam fome. Um fracasso físico espetacular a serviço de uma missão intelectual e espiritual não tão igualmente espetacular.
Gandhi, o símbolo global da não-violência e da resistência pacífica, construiu uma vida pessoal com uma performance obsessiva de pureza - que na prática colocava seguidores sob o domínio absoluto de sua vontade. O apóstolo da libertação que, no microcosmo da sua comunidade, operava como um pequeno ditador da virtude. A Índia ganhou a independência; a visão utópica de Gandhi sobre como as pessoas deveriam viver juntas fracassou completamente.
E. M. Cioran, o filósofo romeno radicado em Paris, foi mais longe: fez do fracasso um projeto de vida consciente. Recusou a fama, a produtividade, a utilidade social. Escreveu aforismos pesados como pedras num apartamento (lembra até alguém que eu conheço…) de Paris que nunca tinha aquecimento decente. E, no fim, a demência chegou antes que pudesse executar o suicídio planejado - o fracasso como última piada do destino. Seu amigo e correspondente Samuel Beckett resumiu bem a parceria: “Amidst your ruins I feel at home.”
Depois tem Yukio Mishima - o melhor (ou pior) para o fim.
Mishima foi provavelmente o maior escritor japonês do século XX, indicado ao Nobel três vezes, um homem que passou a vida inteira obcecado com a morte honrosa no código samurai. Em novembro de 1970, executou o plano que viera arquitetando há anos: liderou um golpe de estado com um grupo de seguidores, tomou o quartel-general das Forças de Autodefesa em Tóquio, foi a uma sacada fazer um discurso convocando os soldados a se levantarem pelo Imperador e foi vaiado com gargalhadas. Os soldados não queriam ouvir filosofia samurai. Queriam o almoço - quem não quer? 🍛
Mishima voltou para dentro, tirou as roupas e cometeu seppuku com uma cerimônia que havia ensaiado com a precisão de um roteiro. Seu segundo, encarregado de decapitá-lo depois, precisou de três tentativas (muito eficiente o rapaz) para terminar o serviço. O maior escritor do Japão, que havia dedicado a vida a planejar uma morte perfeita e significativa, morreu num constrangimento sangrento que durou mais do que deveria.
O contraponto é o rival literário de Mishima, Osamu Dazai - que tentou o suicídio várias vezes antes de finalmente conseguir. Dois escritores japoneses obcecados com a morte: um tentando escapar dela, o outro tentando dominá-la. Ambos falhando de formas opostas e igualmente espetaculares.
A tese do livro é precisa: o fracasso de verdade humilha. Se não humilha, não é fracasso - é só marketing de autoajuda disfarçado de vulnerabilidade. A diferença entre o “fail fast” do Vale do Silício e o fracasso real é exatamente essa: um é trampolim calculado inventado, o outro é o chão batendo na sua cara sem aviso prévio.
E é o segundo tipo: o que dói de verdade, o que não tem narrativa bonita nem redenção garantida - é o que tem qualquer coisa de transformador. Não porque “tudo acontece por uma razão” (odiaria essa frase com toda a minha alma, se eu tivesse uma). Mas porque o fracasso genuíno é o único evento que tem poder suficiente para quebrar a ilusão de que você está no controle de alguma coisa - e é exatamente aí, nas ruínas dessa ilusão, que começa qualquer coisa que vale a pena.
Ode ao fracasso comum
Tem algo libertador em aceitar que fracasso não é uma anomalia do sistema - é uma feature. A entropia existe. Tudo tende ao caos. Manter a vida funcionando, o relacionamento vivo e a saúde em dia já é, por si só, uma vitória cotidiana que ninguém vai postar nos stories.
Viver uma vida normal: com dias improdutivos, corpo que muda, amigos que somem, trabalho que às vezes é só trabalho mesmo não é fracasso. É a condição padrão da existência humana, que o algoritmo se recusa a monetizar justamente por ser universal demais pra gerar engajamento.
Então sim: falhei em várias coisas. Algumas delas com bastante criatividade e até empolgação. E sigo aqui, raciocinando sobre isso.
O fracasso não é o fim do jogo. Às vezes é só a tela de loading antes da próxima fase.
E se não vier próxima fase?
Bem… pelo menos você tem uma história interessante pra contar…
(só não vale pagar de bonzão nas redes sociais depois)