Análise - Dispatch
Platinar jogos com filho pequeno, cachorro que parece o urso do pó branco e uma agenda de trabalho que parece um jogo de Tetris é, no mínimo, um ato de resistência. Cada platina é uma declaração de que, apesar de tudo, ainda tem algum espaço sobrando entre as crises existenciais.
A platina número 80 veio com Dispatch - e quase não veio.

Como eu quase não joguei essa bagaça
Tudo começou porque eu estava travado no modo Final Fantasy de Final Fantasy XVI. Literalmente: meia hora por dia, progresso de formiga, aquela sensação incômoda de que o jogo vai demorar mais meses do que eu tenho de sanidade disponível. Não é que FFXVI seja ruim - é que a platina dele exige um nível de devoção que beira um treinamento Shaolin.
Li sobre Dispatch meio por acidente. Fiquei receoso - esse tipo de jogo mais narrativo, com decisões, diálogos e toda aquela estrutura de “absolute cinema” que todo mundo usa agora para descrever qualquer coisa com cutscene decente. Achei que ia ser mais um jogo que eu ia começar, olhar com cara de interrogação e abandonar na prateleira digital.
Bom.
O início me convenceu a parar. O segundo capítulo me convenceu a continuar.
Vou ser honesto: os primeiros momentos de Dispatch são… mornos. Aquele ritmo de “apresentação do mundo, apresentação dos personagens, estabelecimento de regras, etc.”. Nada de errado com isso estruturalmente - mas não é o tipo de coisa que te segura na cadeira. Eu continuei mais por teimosia do que por encantamento.
E aí chegou o segundo capítulo. Me convenceram a trabalhar (sem spoilers), digo jogar.

Não vou spoilar mais porque seria um crime (apesar de ter sido lançado há um tempinho, né?), mas a história dá uma virada que transforma tudo que você tinha visto antes de um jeito que a maioria dos roteiristas de Hollywood deveria estudar em curso obrigatório. Do segundo capítulo em diante, Dispatch não te deixa mais. Você para de jogar porque precisa dormir, não porque o jogo acabou.
O modo Dispatch: xadrez com super-heróis
O sistema de gameplay central - o modo “dispatch” em si - funciona como um gerenciamento tático de ocorrências. Você tem um time de heróis com habilidades distintas, e precisa decidir quem manda para cada situação. Parece simples. Não é.
Demorei um tempo até “clicar” na lógica do sistema. Mandei o herói errado para o lugar errado umas boas vezes, com resultados que iam de frustrante a hilário. Mas quando a ficha cai - quando você entende a sinergia entre os personagens e começa a ler as ocorrências como um puzzle - o modo vicia de um jeito irritante e delicioso ao mesmo tempo (principalmente se você busca a platina).
É o tipo de sistema que parece raso na superfície e tem profundidade suficiente para te ocupar muito além do necessário.
O sistema de decisões e o problema dos finais múltiplos
Dispatch tem um sistema de decisões que afeta os finais do jogo de um jeito que poucos títulos narrativos conseguem fazer parecer genuíno. Geralmente, jogos com “escolhas que importam” entregam a ilusão do impacto - você escolhe A ou B, o jogo muda uma cena, e segue em frente com a mesma história de qualquer forma.
Dispatch não é assim.
As decisões têm peso e consequências que você só vai entender mais tarde - o que é exatamente como as decisões funcionam na vida real, inclusive (fui filosófico sem querer, me perdoe, são os remédios). O roteiro é construído com uma consistência que te faz querer jogar de novo só para ver o que teria acontecido se você tivesse escolhido diferente.
Ô baita decisão difícil essa, viu?
A trilha sonora e o humor quase escatológico
Dois pontos que merecem destaque separado porque são melhor do que você espera:
A trilha sonora de Dispatch é absurdamente boa. O tipo que você coloca para tocar enquanto trabalha e fica olhando para a tela do Excel com cara de quem está pensando em coisas importantes mas na verdade só está ouvindo a música.
E o humor: Dispatch tem uma veia cômica que chega perto do escatológico e nonsense em vários momentos - o tipo de absurdo situacional que te pega desprevenido e te faz rir alto no meio da madrugada, acordando todo mundo na casa. Me peguei rindo de situações que não fazem sentido fora do contexto do jogo mas, dentro dele, funcionam perfeitamente.
É raro um jogo sério conseguir ser genuinamente engraçado sem quebrar a imersão. Dispatch consegue.
TL;DR - Conclusão

Dispatch não é perfeito. O início é lento demais para quem tem pouca paciência (e eu quase estava nessa categoria). Mas depois que a história te fisgou, é difícil largar.
A platina foi fácil o suficiente para não virar tortura e difícil o suficiente para ser satisfatória. Dado o meu histórico de conseguir platinas só em jogos que realmente gosto, o fato de ter chegado na número 80 com Dispatch já diz bastante sobre o que eu penso do jogo.
Indico fortemente para quem:
- Gosta de jogos com narrativa robusta;
- Tem preconceito com jogos mais narrativos mas quer ser convencido a revisar essa opinião;
- Está tentando platinar o FFXVI e está precisando de algo que te devolva a fé na vida.
Torço para ter continuação. E raramente torço para ter continuação.