Homem vs. Token
Então. A IA ia substituir todo mundo, lembra? Os desenvolvedores iam ser os primeiros. Depois os designers e ilustradores. Depois os gerentes de projeto e agilistas. Depois os redatores. Depois… bem, tecnicamente você, lendo isso agora. Era uma questão de tempo.

Pois bem: a conta chegou. Não a conta do apocalipse do trabalho humano, a conta mesmo, a fatura, o amiguinho boletinho. E ela é mais salgada do que o salário do funcionário que foi mandado embora numa call de quinze minutos com câmera desligada.
O paradoxo que ninguém colocou na apresentação do board
A Microsoft começou a cancelar a maioria das suas licenças do Claude Code. Não porque a ferramenta era ruim, muitíssimo, pelo contrário, era boa demais. Cancelou porque os engenheiros adotaram aquilo com tanto entusiasmo que a escala do uso virou um problema financeiro real. A Microsoft incentivou as pessoas a usarem, elas usaram demais, e agora está recuando da decisão.
A Uber queimou todo o orçamento de ferramentas de IA para 2026 em quatro meses. Quatro fuc*ing meses! O ano mal tinha começado quando a empresa já estava de orçamento zerado para aquilo que ela mesma incentivou via leaderboards internos ranqueando quais times usavam mais IA.
(Isso é real. Estamos todos vivendo numa fanfic corporativa do LinkedDisney.)
A Amazon está incentivando seus funcionários a “tokenmaxxar”, ou seja, a usar o máximo de tokens possível no dia a dia.
A Meta tinha um dashboard chamado “Claudeonomics” para rastrear quem estava usando mais o modelo.
Bryan Catanzaro, vice-presidente de deep learning na Nvidia, disse numa entrevista que, para o time dele, “o custo de computação está muito além do custo dos funcionários.”
Espera. O quê?
O vice-presidente de uma das maiores empresas de chips do planeta - a mesma empresa que lucra absurdamente com a corrida da IA - está dizendo que a IA custa mais do que pagar às pessoas?
Segue o fio que no caminho eu te explico.
Tokenmaxxing: a produtividade que cobra juros
Aqui está o problema estrutural, e ele tem uma elegância cruel que o titio Nassim Taleb adoraria dissecar num novo livro de 1.000 páginas (por Shiva, não).
Quando o custo por token cai, as empresas não economizam. Elas usam mais. É o efeito rebote clássico: quanto mais barata fica a gasolina, mais as pessoas dirigem, e o gasto total aumenta. Só que aqui a gasolina são tokens e o carro é um agente de IA que você colocou para rodar em autonomia total enquanto dormia.
A Gartner prevê que, até 2030, o custo de inferência em um modelo grande vai cair quase 90% em relação a 2025. Isso soa ótimo no slide de PowerPoint. O problema é o slide seguinte: modelos agênticos consomem muito mais tokens por tarefa do que modelos normais; o consumo total deve crescer 24 vezes até 2030, segundo a Goldman Sachs, e os fornecedores de IA não vão repassar integralmente a queda de custo para o cliente.
Tradução livre: o cliente vai pagar mais, não menos. Só vai receber uma fatura com mais linhas para não perceber de imediato.

O analista sênior da Gartner, Will Sommer, resumiu com uma frase que merece ser emoldurada em toda sala de inovação do mundo:
“Chief Product Officers não devem confundir a deflação de tokens commoditizados com a democratização do raciocínio de fronteira.”
Bonita frase. Ainda mais bonita quando traduzida literalmente: vocês estão pagando caro pela parte difícil, e a parte barata que vocês acham que vão ganhar não vai compensar.
A ironia que todo demitido merecia ver
Agora vem a parte do karma.
Em 2023 e 2024, uma série de empresas de tecnologia fez demissões em massa com a justificativa - às vezes explícita, às vezes implícita - de que a IA tornaria aquele trabalho desnecessário ou muito mais eficiente.
Microsoft, Google, Meta, Amazon: dezenas de milhares de pessoas mandadas embora num período em que as ações dessas empresas subiam e as margens eram perfeitamente saudáveis.
A narrativa era sedutora: por que pagar um salário com encargos, benefícios, férias e o risco existencial de a pessoa pedir aumento se você pode pagar por token?

Resposta agora em 2026: porque o token não tira férias.
Mas também não para de gastar enquanto você dorme. Porque o modelo agêntico roda em loop e cada iteração custa dinheiro. Porque, quando você bota todo mundo num leaderboard de “use mais IA” e as pessoas levam isso a sério, você descobre que encorajar consumo sem controle é exatamente tão inteligente quanto parece.
O ser humano demitido era previsível. Custava um valor fixo mensal. Às vezes reclamava. Às vezes atrasava. Às vezes derramava café em cima do notebook (não fui eu). Mas quando desligava o computador às 18h, ele parava. O agente de IA não para. E cada prompt que ele gera em autonomia tem um preço.
Jensen Huang, CEO da Nvidia, disse recentemente que imagina que um dia 100 agentes da IA vão trabalhar ao lado de cada funcionário da empresa. Ótimo. Alguém calculou a conta desses 100 agentes rodando em paralelo no modelo de precificação atual?
(Alguém calculou. É por isso que estamos aqui.)
O que acontece quando o hype bate na realidade
Uso de IA não é um problema. Até porque sou fã confesso do assunto e acredito que a IA ajuda a resolver muita coisa. O que estou dizendo é algo mais perturbador: ela funciona; o problema é a conta.
A diferença entre a promessa e a entrega não é tecnológica. É econômica. As ferramentas fazem o que dizem que fazem. O modelo de negócios que foi construído em cima delas - demita humanos, substitua por tokens, escale infinitamente - bateu numa parede chamada “isso custa dinheiro de verdade”.
Sobre o cancelamento do uso de Claude pela Microsoft: a Anthropic não comentou o assunto quando a revista Fortune pediu. A Microsoft também não, e agora está disponibilizando o Copilot para os funcionários.
O que resta é o cenário ligeiramente cômico de empresas que criaram leaderboards internos para incentivar o uso máximo de IA e agora tentam descobrir como desincentivar esse uso sem parecer que estão se contradizendo completamente.
Esporte corporativo de alto nível. Famoso gerenciamento orientado à gincana.
A 100x org e o CEO mais honesto do Vale do Silício
No mesmo dia em que a Fortune publicava o problema de custo da Microsoft, o CEO da ClickUp, Zeb Evans, postava no X uma das declarações mais honestas - ou mais perturbadoras, dependendo do seu ponto de vista - que um CEO de tech já fez em público:
“Hoje reduzimos o headcount em 22%. O negócio está no melhor momento de sua história. Eu tomei essa decisão e assumo a responsabilidade. Fiz isso porque a forma de operar com o mais alto nível de produtividade está mudando.”
Vinte e dois por cento da ClickUp. Numa empresa de $4 bilhões de valuation. Que não estava passando por crise financeira. Que está indo muito bem, obrigado.
A justificativa é o que Evans chama de “100x org” - uma empresa onde os melhores engenheiros não escrevem código, mas orquestram e revisam agentes de IA, multiplicando sua produtividade muitas vezes. Para quem ficar e atingir o que ele chama de “100x impact”, a empresa está criando faixas salariais que chegam a USD 1 milhão por ano em dinheiro.
Um milhão. Em dinheiro. Por ano.
(Anota aí o novo critério de desempenho da sua próxima avaliação 360.)
Existe algo quase admirável na brutalidade da lógica: Evans não usou o eufemismo habitual de “reestruturação para melhor servir nossos clientes” ou “ajuste estratégico de recursos”. Ele disse, com todas as letras, que a posição de muitas pessoas se tornou estruturalmente obsoleta - não porque elas fossem ruins, mas porque o modelo mudou. Pelo menos ele é honesto.
O problema é o verso dessa moeda.
Se a Microsoft está cancelando licenças de IA porque ficou caro demais, e a ClickUp está demitindo 22% para redirecionar os recursos para os que ficaram, existe uma matemática aqui que não fecha no otimismo: alguém está pagando essa conta. Ou é o token, ou é o humano. Por enquanto parece que a conta está chegando nos dois.
Evans fechou o post com uma frase que vai circular por muitos boards de tech nas próximas semanas: “Quase toda empresa vai fazer mudanças como essas. As que fizerem proativamente vão definir o que vem a seguir.”
Talvez alguém descubra como trabalhar corretamente com o potencial de IA (não, não olhem para mim).
Eu não tenho solução pra isso. Não é esse o trabalho aqui. Só vim para confundir mesmo.
Mas se você foi demitido em 2024 com a promessa velada de que a IA faria seu trabalho melhor e mais barato, e está acompanhando essa história de 2026 onde a conta de tokens custa mais do que o seu salário, pelo menos você pode dormir à noite sem acumular custos de inferência.
Por enquanto. O Neuralink está ali na próxima esquina.