Anthropic, a imparável

Tem empresas que lançam um produto por trimestre e fazem três meses de hype antes disso. A Anthropic decidiu lançar sete features numa única semana e deixar a internet tentando processar tudo ao mesmo tempo. A tela de loading na cabeça de todo mundo está rolando neste exato momento.

E o mais curioso não é nenhuma feature individual. É o que todas juntas significam: o Claude deixou de ser apenas um chatbot que você visitava quando precisava de ajuda. Ele está virando um sistema sempre ligado, distribuído entre seus dispositivos, seus apps e a sua rotina - esteja você prestando atenção ou não.

Quer dizer, a Skynet está mais perto do que imaginávamos. Na torcida!

(Trate bem o seu Claude)

“Claude, o rei de todos!”


Dispatch: controlando o Cowork pelo celular

Sabe aquela mágica que o OpenClaw (Cloudbot, sei lá, mudou de nome duzentas vezes…) fazia de mandar uma mensagem do celular e chegar no computador com o trabalho pronto? Então…

O Dispatch faz exatamente isso. Ele cria uma conversa persistente entre o app do Claude no celular e o Claude Desktop no computador. Você manda a tarefa deitado no sofá, o Claude executa no desktop e você volta para o trabalho finalizado.

A configuração leva dois minutos: abre o Cowork no desktop, clica em Dispatch na barra lateral, escaneia um QR code com o celular e pronto. Sem chaves de API. Sem arquivos de configuração. Sem sofrimento desnecessário. Sem brechas de segurança (ainda).


Channels: Claude Code no Telegram e Discord

Essa aqui é para os devs, vibecoders e afins.

O Channels conecta sua sessão do Claude Code ao Telegram ou Discord via um plugin de MCP (Model Context Protocol). Você manda uma mensagem no bot, o Claude Code recebe, executa e responde na mesma conversa.

O VentureBeat chamou isso de “OpenClaw killer” - e a comparação é justa. O OpenClaw, aquele maledito que viralizou no começo do ano, oferecia algo parecido, mas exigia um Mac Mini dedicado para evitar o FOMO, Node.js 22+, um gateway WebSocket, um pentagrama desenhado no chão e uma configuração digna de um ritual de invocação. O Channels exige instalar um plugin e escanear um código. Só.

A arquitetura é limpa: quando você inicia o Claude Code com a flag --channels, ele sobe um serviço de polling que monitora a plataforma de mensagens escolhida. Mensagem chegou, o Claude executa e responde pelo mesmo canal.

Uma limitação: se o Claude Code bater num prompt de permissão enquanto você estiver fora, a sessão pausa até você aprovar localmente.

Para uso totalmente autônomo, existe a flag --dangerously-skip-permissions - mas só use em ambientes que você confia. O nome da flag já é um aviso por si só.

O dobro de uso


Promoção de uso duplo: 2x de capacidade fora do horário de pico até 28 de março de 2026

A Anthropic dobrou a capacidade de uso do Claude fora do horário de pico - definido como qualquer momento fora das 8h às 14h (no horário da costa leste dos EUA).

Sem cadastro. Sem cupom. Funciona automaticamente.

A matemática geográfica aqui é interessante. Se você está no Brasil, o horário de pico americano corresponde mais ou menos das 9h às 15h no horário de Brasília. Ou seja, sua sessão noturna de trabalho (ou de procrastinação produtiva) está coberta com o dobro de capacidade.

A promoção não conta contra seus limites semanais. É capacidade extra de verdade, não uma redistribuição do que você já tinha.

Provavelmente esse é o primeiro experimento da Anthropic com precificação dinâmica baseada em horário. O modelo “tudo por um preço fixo” para serviços de IA sempre pareceu temporário demais para ser verdade, já que os custos de computação são altos demais. Se isso funcionar, espere mais precificação dinâmica no futuro.

(Traduzindo: aproveite enquanto é grátis.)


Janela de contexto de 1 milhão de tokens: agora para todo mundo

O Opus 4.6 e o Sonnet 4.6 agora incluem a janela de contexto completa de 1 milhão de tokens no preço padrão. Sem multiplicador. Sem tier premium.

Para dimensionar: 1 milhão de tokens equivale a aproximadamente 750 mil palavras. Isso é mais ou menos dez romances inteiros que você não leu, ou uma codebase completa que você também nunca leu, ou todos os e-mails que você enviou e recebeu no último ano (incluindo aqueles que você finge que não leu).

Antes dessa semana, a janela de 1 milhão estava em beta com acesso limitado. Agora é padrão. E a mudança de preço importa: não tem custo extra por usar a janela inteira. Você paga o mesmo se usar 10 mil tokens ou 1 milhão.

Isso significa menos compactações - aquele processo em que o Claude precisa resumir partes anteriores da conversa para liberar espaço. Com 1 milhão de contexto, sessões inteiras de trabalho cabem sem compactação. Suas instruções do início da sessão continuam acessíveis no final. Ninguém mais vai reclamar da sua verborragia.

Para quem usa o Claude Code, repositórios inteiros cabem numa única sessão. Debugging entre dezenas de arquivos vira uma conversa contínua em vez de uma série fragmentada de handoffs ou skills gambiarrísticos.


Modo de voz: falando com o Claude Code

Essa está em rollout gradual - atualmente disponível para cerca de 5% dos usuários do Claude Code.

É push-to-talk: segura a barra de espaço, fala, solta. O Claude transcreve e processa como se fosse texto digitado.

Não é um sistema que fica ouvindo o tempo todo (ainda bem, porque meus monólogos internos são constrangedores). Você ativa com o comando /voice, segura a tecla, fala e solta. A transcrição suporta 20 idiomas, incluindo português, e foi otimizada para termos técnicos e nomes de repositórios.

Muitos devs reportam que conseguem ditar requisitos complexos mais rápido do que digitando - especialmente para explicar workflows de múltiplas etapas ou descrever bugs.

Faz sentido. Dev não sabe escrever: às vezes é mais fácil explicar o problema do que redigir sobre ele.

Se você não tem acesso ainda, atualize o Claude Code para a versão mais recente e tente novamente em alguns dias.

Usei e não achei muito útil, mas pode ser que você goste. Talvez ajude algumas pessoas com necessidades especiais.


Memória para todos: o Claude agora lembra de você

Até pouco tempo atrás, toda conversa com o Claude começava do zero. Sem memória de discussões anteriores. Sem preferências retidas. Sem contexto de trabalhos passados. Você se reexplicava a cada sessão como quem conta a mesma piada para a mesma pessoa toda semana.

Todo mundo conversando feliz

Agora o Claude retém contexto e preferências entre conversas. Seu nome, seu estilo de escrita, seus projetos em andamento, suas preferências - tudo persiste entre sessões.

Para quem já usa o Cowork com arquivos de contexto (about-me.md, brand-voice.md, working-style.md), a memória adiciona uma camada extra. Seus arquivos lidam com o conhecimento estruturado e profundo. A memória lida com a continuidade conversacional - as pequenas preferências e threads que seria tedioso codificar em arquivos.

Um detalhe bacana: você pode importar suas configurações de memória do ChatGPT direto para o Claude com um clique. Para quem está migrando, isso remove um dos maiores pontos de atrito.

É só acessar aqui: https://claude.com/import-memory

E você pode ver e editar tudo o que o Claude lembra sobre você em Configurações. Nada é escondido. O controle é seu.

(Diferente daquela ex que lembrava de tudo que você disse em 2016 e usava contra você em 2024.)


/loop: tarefas recorrentes no Claude Code

Define um intervalo e um prompt, e o Claude executa automaticamente naquele schedule. É basicamente um cron job leve dentro da sessão.

A sintaxe é simples:

/loop 5m check the deploy

Isso diz ao Claude para checar o status do deploy a cada cinco minutos. Roda enquanto a sessão estiver aberta.

Casos de uso que já funcionam: monitoramento de CI/CD durante deploys, observação de arquivos de log para erros específicos, checagem de endpoints de API em intervalos regulares, monitoramento de status de build (uso com a Cloudflare) e verificações periódicas de qualidade de código.

Não é um sistema de agendamento completo porque roda dentro da sessão atual e para quando você fecha. Para tarefas agendadas persistentes, o recurso de scheduled tasks do Cowork é mais adequado. Mas para monitoramento temporário durante trabalho ativo, o /loop preenche uma lacuna que antes só era possível com ferramentas separadas como o Ralph Loops (https://github.com/snarktank/ralph) .


O elefante na sala

Sete features. Uma semana. Nenhuma delas, isoladamente, é o apocalipse tecnológico que o X.com adora proclamar. Mas juntas, elas desenham um padrão que vale prestar atenção.

O elefante na sala

O Claude não é mais uma ferramenta que você abre quando precisa. Ele está se transformando num sistema que opera nos bastidores: no seu celular, no desktop, no terminal, no Telegram, no Discord + memória persistente, contexto massivo e capacidade de executar tarefas recorrentes sem supervisão.

É o tipo de mudança que não gera um momento de “uau!” instantâneo, mas que daqui a seis meses faz você olhar para trás e pensar “como eu trabalhava antes disso?”.

Ou não. Talvez daqui a seis meses estejamos todos discutindo o próximo hype e fingindo que esse nunca existiu. (Eu provavelmente estarei.)

De qualquer forma, se você usa o Claude em qualquer plano, vale dar uma olhada nas configurações de memória, testar o Dispatch se usa o Cowork, experimentar o Channels se vive no terminal e aproveitar a promoção de uso duplo antes que ela acabe.

E se você é do tipo que gosta de assistir à corrida armamentista da IA com pipoca e um certo ceticismo saudável, bem… a semana da Anthropic foi um prato cheio.

Só não vá pedir para o Claude fazer o seu trabalho inteiro enquanto você dorme.

Ainda não. Digo, talvez em julho.